A caneta no sonho escreve sozinha, falha na hora da assinatura, ou mancha o dedo de azul. Coisa miúda, e mesmo assim a pessoa acorda procurando o que tinha que assinar. No caderno brasileiro dos sonhos, a caneta vai para o burro, grupo 03, com o caderno, a escola e o ofício de quem anota. Não é a carta, que tem ficha no galo, nem o diploma, que já mora nesta vizinhança de estudo. A caneta é o instrumento, o risco no papel, a frase que ainda pode ser riscada.
A caneta não tem número próprio. O que tem número é o fim. 2309 traz 09, burro. 13 no lugar de 09 seria borboleta. 5610 acaba em 10 e 8012 acaba em 12, os dois dentro do grupo 03. Esses exemplos existem para a pessoa conferir a tabela, do jeito que se confere um prêmio já publicado.
Caneta sem tinta comenta uma hora em que a pessoa precisa falar e a voz não sai, ou assinar e o papel fica em branco. Caneta que escreve o que a pessoa não mandou comenta um recado fora de controle, um nome que aparece sem ser chamado. Caneta emprestada e não devolvida comenta uma pequena dívida de favor, daquelas que ninguém cobra e todo mundo lembra.
A tinta não vira aposta nesta página. O grupo 03 organiza a leitura antiga. O que vai sair no sorteio fica de fora.
O cheiro de tinta às vezes atravessa o sonho e some quando a pessoa lava a mão e vê que o dedo está limpo. A mancha era só da noite.